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Entenda o perigo de uma tradução ao pé da letra!

A tradução automática tem facilitado a vida de muita gente que precisa entender — ou se fazer entender em — outro idioma com rapidez e praticidade. Entretanto, quem já usou esse tipo de software pelo menos uma vez sabe que sua tendência é apostar na tradução ao pé da letra, muitas vezes produzindo textos sem nenhum sentido e até meio cômicos.

Mas embora seja relativamente inofensiva em comunicações informais e cotidianas, a tradução palavra por palavra traz perigos enormes para quem decide empregá-la em contextos mais delicados. Não acredita? Então acompanhe o post a seguir e descubra quais podem ser as consequências de uma tradução literal equivocada e como você pode fugir delas!

A tradução ao pé da letra na história

Para começo de conversa, saiba que os perigos da tradução literal não são nenhuma novidade para quem é um tradutor estudado. Na verdade, eles são conhecidos desde os primórdios da história da tradução.

Ainda na Antiguidade, Cícero, um dos primeiros tradutores da história, defendia a necessidade de se procurar repassar de uma língua para outra o peso das palavras no lugar de seu número, ou seja, seu sentido geral no lugar daquele de cada um dos termos separados. Séculos mais tarde, São Jerônimo, primeiro tradutor da Bíblia e hoje tido como o patrono dos tradutores, procurou trabalhar traduzindo “ideia por ideia” em vez de palavra por palavra a fim de preservar ao máximo o significado do original. E na época do Iluminismo, o filósofo alemão Voltaire questionou o mito de Babel pela sugestão nele implícita de que todas as línguas têm a mesma origem, o que implica que também tenham correspondentes perfeitos entre uma e outra e, por isso, possam ser traduzidas literalmente sem nenhum problema.

O que pode dar errado

A impossibilidade de se traduzir sempre ao pé da letra já é bem conhecida de quem entende de história da tradução, mas se você ainda não está assim tão convencido, confira agora o que pode dar errado quando traduzimos alguma coisa literalmente, em ordem do menor perigo para o maior:

Compreensão com estranhamento

É claro que existe a possibilidade — mesmo que remota — de que uma frase ou expressão em determinado idioma tenha exatamente o mesmo sentido, com exatamente as mesmas palavras em outro. No entanto, isso é algo bastante raro, e o melhor que pode acontecer quando não há essa correspondência entre as línguas é que o falante da língua-alvo (isto é, do idioma para o qual se está traduzindo) compreenda parcial ou totalmente o texto, ainda que haja alguma confusão.

É o que acontece, por exemplo, quando se traduz “seat belt”, do inglês, para “cinto de assento” no lugar de “cinto de segurança”, em português. Dependendo do contexto, o falante de português provavelmente entenderia a expressão, mas não sem algum estranhamento.

Incompreensão total

Quando a tradução ao pé da letra não tem realmente nada a ver com seu correspondente na língua-alvo, o falante pode simplesmente não entender o que está sendo dito. Isso pode acontecer, por exemplo, quando se traduz uma expressão idiomática de maneira literal.

É o caso da frase em francês “les carrotes sont cuites”, que apesar de significar literalmente “as cenouras estão cozidas”, na verdade quer dizer que uma situação não pode ser mudada mais.

Compreensão inadequada

Por último, o maior perigo de uma tradução literal é criar uma frase ou expressão que na língua-alvo até faz sentido, mas com um significado totalmente diferente do da língua-fonte. Além de poder gerar um mal-entendido, esse tipo de erro ainda pode ofender o falante da língua-alvo ou levá-lo a uma ideia completamente oposta à que se quer chegar.

Um bom exemplo é a palavra alemã “Schwarzfahrer”, muito encontrada nos trens e metrôs na forma do aviso “Schwarzfahrer zahlen €40”. Se traduzida ao pé da letra para o português, a placa diz que “passageiros negros pagam 40 euros”, o que, inclusive, parece uma afirmação completamente racista. Na realidade, porém, “Schwarzfahrer” usa o adjetivo “negro” para se referir a algo ilegal — isto é, pessoas usando o transporte sem pagar passagem —, da mesma forma como, em português, usamos a expressão “mercado negro”. Já imaginou a confusão que esse tipo de equívoco em tradução poderia causar?

Como evitar esse tipo de tradução

Para fugir dos perigos da tradução ao pé da letra, é preciso, antes de qualquer coisa, verificar se o trecho a ser traduzido literalmente faz sentido na língua-alvo e, ainda, se esse sentido é igual ou pelo menos equivalente ao do original.

É possível, por exemplo, traduzir a expressão “falando do diabo” por “speaking of the devil”, em inglês, já que apesar de ser ao pé da letra, as duas realmente têm o mesmo significado em ambas as línguas.

Em casos em que isso não acontece, no entanto, o melhor é buscar um correspondente na língua-alvo que seja usado mais ou menos no mesmo contexto que aquele da língua-fonte. Para a expressão francesa “les carrotes sont cuites”, por exemplo, poderíamos empregar a expressão “não adianta chorar sobre o leite derramado”, indicando que agora é tarde para tentar mudar algo que ocorreu no passado. Da mesma forma, o aviso “Schwarzfahrer zahlen €40” deve ser traduzido para outras línguas com a mesma expressão usada no transporte público do país. No Brasil, como esse tipo de aviso não é comum, seria possível dizer simplesmente algo como “proibido viajar sem passagem” ou “viajar sem passagem acarreta multa de 40 euros”.

De qualquer maneira, o ideal é sempre procurar saber qual é a expressão exata usada pelos nativos da língua-alvo em um contexto similar ao da língua-fonte.

Quando a tradução palavra por palavra é aceitável

Apesar de todos esses perigos, existem sim situações em que a tradução literal é não apenas aceitável como, ainda, desejável. Isso ocorre principalmente em textos de alto valor literário, preferencialmente com comentários ou notas explicativas do tradutor, ou em textos em que se quer tratar justamente das diferenças entre dois ou mais idiomas.

Nesses casos, a tradução palavra por palavra pode contribuir para que o leitor que tem pouco ou nenhum conhecimento do idioma estrangeiro possa se familiarizar com sua construção e sua forma de expressar certos significados. Em textos com funções mais pragmáticas, contudo, permanece a regra de fugir da tradução literal sempre que possível.

Entendeu agora por que a tradução ao pé da letra pode te trazer problemas? Ainda restou alguma dúvida sobre o assunto? Então comente para que possamos te ajudar a solucioná-la e aproveite para contar se você já passou algum aperto por causa de uma tradução literal!

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